2014: O ano em que você vai levar um furo de um jorna-nerd

Em 2014, você vai levar furo de um repórter que sabe programar. Sim, você mesmo. Não o repórter na baia ao lado. Não aquele colega de faculdade. Você.

“Posso dizer então que isso que você falou seria…”


Claro, repórteres não precisam programar. Mas há muitas coisas que repórteres não precisam saber como fazer. Eles também não precisam saber escrever — muitos “artistas do furo” mal conseguem escrever seus nomes e seus textos são reescritos por santos editores. Vários que sabem escrever muito bem são do tipo acanhado, não conseguem conceber como convencer estranhos a contar seus segredos. E todos conhecemos repórteres que não sabem fazer uma requisição usando a Lei de Acesso à Informação e não suportam a ideia de ler a avalanche de documentos que, com sorte, chegam com a resposta.
Você pode ser um bom jornalista sem ser capaz de fazer várias coisas. Mas cada habilidade que você não tem deixa toda uma categoria de histórias e reportagens fora do seu alcance. E histórias baseadas em dados são, normalmente, aquelas que conseguem se esconder debaixo do seu nariz.

Pode ser que essa nova safra de jornalistas não consiga conversar com uma fonte, mas eles saberão cavar pautas que estão escondidas debaixo dos nossos narizes


Raspar websites, limpar dados, e acessar bases de dados capazes de fazer o Excel dar pau são formas incrivelmente úteis de encontrar novas pautas. Se você não sabe escrever programas que possam te ajudar a buscar esses dados e analisá-los, haverá sempre um limite para o tamanho das pautas que você consegue cavar sozinho. E este é um limite que seu competidor não terá.
Aqui vão alguns exemplos de matérias publicadas no último ano por programadores/jornalistas que qualquer um de nós teria tido orgulho de escrever:
Uma matéria da Al Jazeera América analizando contas de usuários roubadas por causa de senhas comuns, inseguras, escrita por um recém-pós-graduado do MIT
Uma matéria sobre varejistas online que sorrateiramente oferecem preços diferentes para pessoas tendo como base sua localização, feita por uma equipe que inclui dois programadores.
Uma reportagem — e um banco de dados interativo — que envolveu escrever um programa para detectar autocensura em uma famosa rede social chinesa, e mostrou aos leitores imagens que foram apagadas.
Você provavelmente ainda não levou um furo de um jorna-nerd. Sua sorte pode durar um tempo. Mas em algum lugar por aí está uma jornalista recém-formada que acabou de começar a cobrir assuntos da sua editoria. Ela é foca e não tem os seus contatos. Quando ela fala com as fontes, a voz dela treme e ela não faz todas as perguntas que deveria. Mas ela estudou Python e estatística, e ela consegue usar Open Refine e PostgreSQL, então ela é mais rápida que você. E ela está para publicar algo que você achou que ninguém sabia.
Você não vai perceber ela chegando. Não vai sequer escutar os passos dela, porque você não está lendo a mesma lista de emails que ela acessa para tirar dúvidas sobre como acessar o XML daquele órgão governamental que você tem assediado por anos. Você não vai ouvir de suas fontes que ela está fazendo algum barulho, porque ela já sabe o que eles sabem e ela só vai ligar pra eles quando for tarde demais pra você.
Você pode pensar em deixar essa coisa de programação para “os profissionais”. Mas sua próxima grande reportagem está trancafiada em uma base de dados. Por que deixar que outra pessoa chegue nela primeiro?
Este post foi originalmente publicado no blog do Nieman Lab, da Universidade Harvard, pelo brilhante Scott Klein, editor-sênior de aplicativos jornalísticos na ProPublica e cofundador do Document Cloud. Adaptação livre deste que vos escreve.

P.S.: Aqui no Brasil, estamos construindo a Escola de Dados, que pretende ajudar qualquer pessoa a entrar nesse mundo dos dados, usando-os de forma efetiva e impactante.