Uma reflexão sobre o plebiscito de Dilma

Pensando melhor sobre o plebiscito que a Dilma anunciou ontem de tarde, lendo, ouvindo e vendo vários comentários de juristas, deputados e pitaqueiros de plantão, os caminhos que poderiam apontar para uma suposta reforma política, na verdade, desenham um cenário que merece a mais profunda reflexão. Longe de cometer o mesmo erro que cometi durante a tarde e nesse post de sábado, o de me juntar apaixonadamente ao coro que apoiou o anúncio da Dilma, convido a todos para pensarem sobre a questão com muitíssima cautela.
Primeiro, vamos aos fatos. A presidente não fez, a rigor, nenhuma proposta concreta ao povo brasileiro. Ela disse exatamente o seguinte sobre o plebiscito:
“Quero, nesse momento, propor o debate sobre a convocação de um plebiscito popular que autorize o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita.”
Seria bom ler a frase pausadamente, palavra por palavra. Uma ajudinha:
Quero. Propor. Debate. Sobre a convocação. Plebiscito.
A presidente, na verdade, e desculpem a redundância, quer propor o debate sobre a convocação de um plebiscito popular. Esse plebiscito, se assim o povo decidir, autoriza o funcionamento de um processo constituinte específico. Essa Constituinte faria, supostamente, a reforma política que o país tanto necessita. Continue…

PEC 33: você é contra, eu sou meio a favor

Além dos cartazes sobre a PEC 37, já vi também vários nas ruas que pedem o fim da PEC 33, a Proposta de Emenda Constitucional que, supostamente, pretende colocar um cabresto no Supremo Tribunal Federal. Em vez de escrever um cartaz dizendo que sou contra a PEC 33, depois de ler muito sobre o assunto, meu cartaz ficaria assim:

mtrpires é meio contra a PEC 33

Nem tudo é preto e branco, gente.


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Constituinte exclusiva para reforma política em um ano. Dá?

Esqueça por um momento a ojeriza que você tem em relação a políticos e concentre-se no conteúdo. O senador Cristóvam Buarque (PDT-DF) propôs a criação de uma constituinte exclusiva para uma reforma política, no prazo de um ano. Quem participar, não pode ser candidato. “Só assim os jovens que estão nas ruas se sentirão representados no governo”, disse.
Diante de todos os quero-isso-e-aquilo, uma reforma política profunda, agora, me parece o objetivo mais palpável que temos no momento. Se essa constituinte sair, essa revolução pela qual estamos passando terá um objetivo, um fim e uma cara.
Se essa revolução precisa de um objetivo, que ele seja a transformação completa da política brasileira, que há tanto tempo é objeto de nojo da nossa geração. E aí, dá?
#constituinteJá!
Edição:
Desde que a presidente anunciou que proporia um plebiscito sobre essa tal Constituinte, muito foi discutido e refletido sobre o assunto. Por favor, considerem a leitura:
Não se iluda, Constituinte também terá Felicianos
Uma reflexão sobre o plebiscito de Dilma

 

Não, meu partido não é o Brasil. Nem o seu deveria ser.

Gente, para um pouco agora. Pensa. Pensa no que está acontecendo nas ruas, pensa nas mensagens que estão sendo ditas. Pensa no sentimento que está ganhando forma. Enquanto você reflete aí, me responde: o que é uma democracia? Já volto nisso.
Passando pela Paulista hoje, o clima de carna-protesto me deixou meio tenso. Vi dezenas, senão centenas, de pessoas com cartazes exibindo diferentes mensagens. A maioria era inofensiva, da cura gay, passando pela PEC 37, até fora corruptos.
Mas tinha uma minoria de mensagens que sempre ganhava mais força nos gritos de ordem. “Ei, <partido>, vai tomar no cu.” Ou, “Ei, <partido>, vai se fuder, o nosso movimento não precisa de você.” Faixas grandes exibiam em letras garrafais “O MEU PARTIDO É O BRASIL”, ou “Eu sou apartidário”. Ou ainda coisas esdrúxulas como a hostilização dos profissionais de imprensa. As pessoas estão gritando nas ruas que não precisam dos jornalistas.
Hoje, em Brasília, pessoas tacaram fogo no Itamaraty enquanto tentavam invadir o prédio. No Rio, a população entrou em confronto direto com a polícia. Em Porto Alegre, alguns tentavam saquear o centro. Em Ribeirão Preto uma família acabou de perder seu filho, morto atropelado durante a manifestação.
Não gente. Assim não. Continue…

PEC 37: o que é? Ou: É bom se manifestar, mas é bom também pensar

Ontem escrevi um post no Facebook e algumas pessoas pediram para que o link se tornasse público. Para tentar ampliar ainda mais o debate, reproduzo aqui. O texto contém alguns erros de conceito, mas nada que prejudique a mensagem como um todo:
Andando pela manifestação de segunda vi muitos cartazes que diziam assim: “Abaixo PEC 37” ou “Fora PEC 37, a PEC da Impunidade”. Em vez de vir pra casa e escrever um cartaz parecido, fiz o que o Pierre me sugeriu. Fui estudar. Por que assim, é uma questão que merece uma discussão de alto nível e tá passando por cima da cabeça de todo mundo.

PEC 37 cartaz manifestação

Não sei se minha mãe é contra ou a favor, mas ela educou o filho a formar opinião primeiro, antes de se manifestar sobre assuntos tão importantes para o país


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Prêmio Esso Educação 2012: uma aula de jornalismo de dados e bom senso

O título “Aula de Excelência na Pobreza”, matéria d’O GLOBO que rendeu o Prêmio Esso de Educação em 2012 ao jornal, não parece, a princípio, nada fora do comum para uma pauta de educação/desenvolvimento social. Um bom exemplo encontrado na Amazônia, uma escola incrível, ponto fora da curva no Brasil. Mas não é bem assim. Antônio Gois, jornalista do GLOBO que liderou o especial, explicou como a pauta nasceu para o grupo de 30 jornalistas que participa do curso de jornalismo de dados organizado pela fundação lemann em parceria com o Insper.
Gois, com a ajuda de Ernesto Farias, economista da fundação lemann, selecionou todas as escolas brasileiras com nota acima de seis no Ideb (nível que seria compatível com escolas de países desenvolvidos), mas com uma ressalva: aquelas que têm o nível sócio-econômico mais baixo, até 25% na escala. O corte separou 82 escolas das demais brasileiras. Muitos já tirariam uma manchete daí, “82 escolas ‘pobres’ do Brasil têm nível de primeiro mundo”.
Contudo, algumas dessas escolas podiam ser exceções. Foi feita uma análise de contexto: como essas escolas pontuaram em Idebs anteriores? É um comportamento de tendência ou um pico inesperado? Apenas as que tiveram pontuação consistente ao longo dos anos foram selecionadas para receber visita da equipe. Além disso, os jornalistas do GLOBO bolaram um questionário com 10 perguntas para que os repórteres pudessem verificar de forma uniforme se as escolas tinham características em comum que ajudasse a explicar o bom desempenho no Ideb.
Dentre as características comuns às escolas, estão a preocupação em não deixar nenhuma criança para trás, a participação das famílias estimulada pelas escolas, o bom ambiente escolar e a satisfação dos professores.

Ferramenta organiza e visualiza dados da educação básica brasileira

Ontem conheci uma ferramenta muito interessante, lançada em agosto de 2012, chamada Qedu. Parceria entre a fundação lemann e a Mettric, é um excelente exemplo de como o governo deveria fazer visualização de dados.

A escola onde estudei até a sexta série vai até muito bem em relação ao resto do Brasil

A escola onde estudei até a sexta série vai muito bem em relação ao resto do Brasil


O Qedu organiza dados da Prova Brasil e do Censo Escolar de todo o país. Com interface incrivelmente amigável, qualquer um consegue fazer análises gerais da educação brasileira, quanto mergulhar profundamente até sabe como vai a escolinha que fica nos cafundós da rembimboca da parafuseta. O site é tão complexo, e ao mesmo tempo tão simples de mexer, que chega a ser ridículo. É também o paraíso dos viciados em dados, que podem exportar tudo para csv, xls, pdf, fazer comparações entre estados, cidades, regiões geográficas e exibir tudo em quadros ou mapas.
Seria o Qedu um modelo a ser replicado para outros setores (segurança pública, desenvolvimento social, saúde…)?
 

USP lança primeiro "massive online open course" da América Latina

No dia 12 de junho, a Universidade de São Paulo, junto com o Veduca, lança o primeiro MOOC (Massive Online Open Course) da América Latina… assinado por uma universidade pública. A bem da verdade vários MOOCs já rolaram por aqui, um exemplo é o curso de jornalismo de dados do Knight Center for Journalists da América Latina. Existem outros que poderiam se encaixar na descrição de “Curso Massivo Aberto e Online”, mas normalmente a sigla está atrelada a instituições de ensino superior, há emissão de certificado de honra, são gratuitos, estruturados, têm acompanhamento em tempo real e início, meio e fim. Enfim, existem “turmas”.
Os cursos oferecidos pela USP serão Física Mecânica Básica e Probabilidade e Estatística. Com isso, a USP entra para a lista de universidades ao redor do mundo que estão apostando no experimento de ensinar milhares de alunos ao mesmo tempo. Há um ano, por exemplo, Harvard e MIT fundaram o edX. Desde então, várias outras se uniram à plataforma. Outros bons exemplo são o Coursera e o Udacity, ambos encubados em Stanford. Todos, contudo, oferecem cursos em inglês.
Não será a mesma coisa do que estudar na USP, como não é estudar no MIT quem fez um curso do eDX. Mas se a instituição seguir o exemplo lá de fora, a experiência será de altíssima qualidade.

Investigando a qualidade da educação com dados públicos

Começou hoje em São Paulo o curso Investigando a qualidade da educação com dados públicos. Uma parceria da fundação lemann, da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e o Insper. Representando diversos veículos, 30 jornalistas vão escarafunchar técnicas e práticas para melhor cobrir a pauta da educação no Brasil. Um detalhe legal: dos 25 presentes, quatro são homens.

Onde achar os dados sobre a educação no Brasil?


Serão 12 horas de curso, dividas em três manhãs. A primeira vai se dedicar ao acesso à educação e indicadores de qualidade. A segunda sobre Ideb, Enem e Pisa, e como avaliá-los por meio dos dados. A última sessão vai discutir a melhor forma de cruzar todos esses dados. Antonio Gois, jornalista do O GLOBO e vencedor do Prêmio Esso de 2012 vai contar como foram os bastidores da série vencedora.
Ao fim, os jornalistas são convidados a entregar um projeto de pauta.