Querida família

Eu não vivi a ditadura, mas sabemos, hoje, que a “revolução de 64” foi um Golpe de Estado. Os grupos que apoiaram o golpe erraram. Erraram porque foram contra a democracia, coisa que nunca devemos fazer. Não há saída fora da democracia. A decisão desses grupos em apoiar a tomada de poder pelos militares resultou num período longo e traumático para o Brasil. Famílias perderam seus filhos, políticos perderam seus direitos. Pessoas foram exiladas. Muitos torturados. O que se avançou com o milagre econômico na gestão Médici é pequeno frente ao retrocesso cívico que tivemos no país.
A nação perdeu muito, tanto do ponto de vista de violação de direitos fundamentais, quanto do ponto de vista da liberdade de pensamento. Sabemos também que a ditadura não começou anunciada. Tudo foi feito como rezava o rito constitucional, com a benção do Supremo, do Congresso e da imprensa, e inclusive com apoio de alguns setores da sociedade.
Mas golpes raramente são anunciados como tal. O que circulava nos press releases de 1964 era um novo governo que respeitaria a constituição e colocaria o Brasil nos trilhos, para limpar a corrupção e uma solução para afastar de vez a “esquerda”. É assustador como essa proposta tem similaridade com as narrativas que transitam pelo Brasil hoje. Continue…

Albert Einstein e a ciência de conta-gotas

É… o Albert Einstein sofreu depois que se formou na universidade. Ele queria porque queria seguir carreira acadêmica, mas o universo conspirou contra. Ninguém o queria como assistente… pode? Acabou conseguindo publicar um paper de forma independente num respeitado periódico da época, mas de zero contribuição para o legado da Física. Arrumou então o que muitos hoje procuram: a estabilidade de um emprego público. Virou parecerista júnior de patentes do governo Suíço. Ganhava mais do que um professor assistente em início de carreira, mas não estava nos entremeios acadêmicos. E pode ter sido justamente isso que nos brindou com sua genialidade… e me pergunto se algo parecido seria possível nos dias de hoje. Continue…

2014: O ano em que você vai levar um furo de um jorna-nerd

Em 2014, você vai levar furo de um repórter que sabe programar. Sim, você mesmo. Não o repórter na baia ao lado. Não aquele colega de faculdade. Você.

“Posso dizer então que isso que você falou seria…”


Claro, repórteres não precisam programar. Mas há muitas coisas que repórteres não precisam saber como fazer. Eles também não precisam saber escrever — muitos “artistas do furo” mal conseguem escrever seus nomes e seus textos são reescritos por santos editores. Vários que sabem escrever muito bem são do tipo acanhado, não conseguem conceber como convencer estranhos a contar seus segredos. E todos conhecemos repórteres que não sabem fazer uma requisição usando a Lei de Acesso à Informação e não suportam a ideia de ler a avalanche de documentos que, com sorte, chegam com a resposta.
Você pode ser um bom jornalista sem ser capaz de fazer várias coisas. Mas cada habilidade que você não tem deixa toda uma categoria de histórias e reportagens fora do seu alcance. E histórias baseadas em dados são, normalmente, aquelas que conseguem se esconder debaixo do seu nariz. Continue…

Legalização das drogas: um ou dois argumentos que te farão refletir sobre

Drogas: problema moral ou de polícia?

Drogas: problema moral ou de polícia?


Legalizar ou não? O estado deve ser conivente com o processo de autodestruição de milhares? Ou deve simplesmente regulamentar o espaço e deixar o livre-arbítrio se manifestar? Diminuir o lucro dos traficantes? Ou combatê-los com dinheiro e armas? O usuário é criminoso por consentir com a prática ilegal e financiar o mercado clandestino?
Afinal, qual a natureza da questão sobre as drogas? Moral? Civil? Criminal? Continue…

Pesquisa: você sabe como funciona o sistema de representação proporcional brasileiro?

O sistema eleitoral brasileiro pode ser confuso pra muita gente, pois utiliza uma abordagem mista. Vereadores e deputados são eleitos diferentemente de presidentes, governadores, prefeitos e senadores. No caso dos deputados e vereadores, trata-se de uma eleição que privilegia os partidos, não os candidatos. A representação é proporcional.
Antes de publicar um posto que entre mais a fundo no sistema que elege nossos legisladores das câmaras peço que respondam com honestidade à pesquisa abaixo. Completamente anônima!

Uma reflexão sobre o plebiscito de Dilma

Pensando melhor sobre o plebiscito que a Dilma anunciou ontem de tarde, lendo, ouvindo e vendo vários comentários de juristas, deputados e pitaqueiros de plantão, os caminhos que poderiam apontar para uma suposta reforma política, na verdade, desenham um cenário que merece a mais profunda reflexão. Longe de cometer o mesmo erro que cometi durante a tarde e nesse post de sábado, o de me juntar apaixonadamente ao coro que apoiou o anúncio da Dilma, convido a todos para pensarem sobre a questão com muitíssima cautela.
Primeiro, vamos aos fatos. A presidente não fez, a rigor, nenhuma proposta concreta ao povo brasileiro. Ela disse exatamente o seguinte sobre o plebiscito:
“Quero, nesse momento, propor o debate sobre a convocação de um plebiscito popular que autorize o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita.”
Seria bom ler a frase pausadamente, palavra por palavra. Uma ajudinha:
Quero. Propor. Debate. Sobre a convocação. Plebiscito.
A presidente, na verdade, e desculpem a redundância, quer propor o debate sobre a convocação de um plebiscito popular. Esse plebiscito, se assim o povo decidir, autoriza o funcionamento de um processo constituinte específico. Essa Constituinte faria, supostamente, a reforma política que o país tanto necessita. Continue…

Não se iluda, Constituinte também terá Felicianos

A cada quatro anos nós vamos às urnas votar em deputados federais e senadores. Chegamos lá, apertamos uns numerozinhos, aparece a foto do camarada, e pressionamos o verde. Quem é aquele cidadão? Um político. Ok. Mas o povo está insatisfeito, não se sente representado, e alguém resolve convocar uma constituinte exclusiva para a reforma política. Ou “propor o debate sobre a convocação de um plebiscito popular que autorize o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política”.
A suposição é que os constituintes não estarão contaminados pelo risco de perder o mandato e enfim poderão fazer a tão sonhada reforma que o Brasil precisa. E quem serão os constituintes? “Gente da sociedade civil”, diz a resposta mais batida. E que raios são os políticos? “Gente da sociedade militar”? Ou são empresários, médicos, professores, sindicalistas, servidores, pastores e outros cidadãos que optaram por disputar uma eleição? Continue…

PEC 33: você é contra, eu sou meio a favor

Além dos cartazes sobre a PEC 37, já vi também vários nas ruas que pedem o fim da PEC 33, a Proposta de Emenda Constitucional que, supostamente, pretende colocar um cabresto no Supremo Tribunal Federal. Em vez de escrever um cartaz dizendo que sou contra a PEC 33, depois de ler muito sobre o assunto, meu cartaz ficaria assim:

mtrpires é meio contra a PEC 33

Nem tudo é preto e branco, gente.


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Constituinte exclusiva para reforma política em um ano. Dá?

Esqueça por um momento a ojeriza que você tem em relação a políticos e concentre-se no conteúdo. O senador Cristóvam Buarque (PDT-DF) propôs a criação de uma constituinte exclusiva para uma reforma política, no prazo de um ano. Quem participar, não pode ser candidato. “Só assim os jovens que estão nas ruas se sentirão representados no governo”, disse.
Diante de todos os quero-isso-e-aquilo, uma reforma política profunda, agora, me parece o objetivo mais palpável que temos no momento. Se essa constituinte sair, essa revolução pela qual estamos passando terá um objetivo, um fim e uma cara.
Se essa revolução precisa de um objetivo, que ele seja a transformação completa da política brasileira, que há tanto tempo é objeto de nojo da nossa geração. E aí, dá?
#constituinteJá!
Edição:
Desde que a presidente anunciou que proporia um plebiscito sobre essa tal Constituinte, muito foi discutido e refletido sobre o assunto. Por favor, considerem a leitura:
Não se iluda, Constituinte também terá Felicianos
Uma reflexão sobre o plebiscito de Dilma