Data journalism como defensor da democracia

“Saiam às ruas e façam uma revolução se for preciso”, disse Tim Berners-Lee. O pai da World Wide Web não estava brincando. No bate-papo desta terça-feira no palco principal da quarta edição da Campus Party Brasil, o engenheiro britânico trocou ideias com o ex-vice-presidente americano e vencedor do Nobel da paz de 2007, Al Gore, sobre como manter a web e a internet abertas e gratuitas para o fortalecimento do data journalism e como ele pode servir de ferramenta para salvar o mundo da tirania, do limite à liberdade individual e das mudanças climáticas causadas pelo homem. O debate foi mediado por Ben Hammersley, editor senior da Wired, presidente da Campus Party USA e alguém que voltaremos a falar sobre na próxima sexta-feira (21) segunda (24).
Lee já havia comentado que o futuro do jornalismo passa necessariamente pela capacidade dos governos de liberarem ampla e gratuitamente as informações sensíveis dos países. As histórias também passarão a ser contadas a partir de profundas análises de massivos bancos de dados. Certa vez, contou, teve a oportunidade de conversar com o ex-primeiro ministro britânico Gordon Brown. O líder perguntou a Lee como a Inglaterra poderia utilizar a internet para melhorar a vida das pessoas. O criador da WWW respondeu que o único jeito era liberar toda e qualquer informação do governo na web. Em outras palavras, publicar na internet todas as informações públicas do país de maneira organizada e transparente.
O resultado da conversa foi a criação do data.gov.uk, um projeto encabeçado pelo próprio Lee para divulgar praticamente todas as informações não-pessoais da Inglaterra na web, para que qualquer um possa usar. A atitude estimulou a criação de serviços como o blog de dados do jornal inglês Guardian. Com o acesso a milhões de dados, jornalistas e programadores conseguiram organizar as informações de maneira fácil de digerir. Qualquer cidadão pode acessar os dados organizados pelo Guardian e tomar decisões honestas sobre os fatos apresentados. É isso que vai acelerar o amadurecimento das democracias, concordam Gore e Lee.
O ex-presidente americano acredita que quanto mais os profissionais criarem formas de relacionar os dados publicados pelo governo, maior será o fator de conscientização das pessoas. Gore deu a ideia de se criar um mapa global mostrando como os hábitos de consumo ligam as pessoas às 10 maiores empresas poluidoras do mundo. O simples fato de visualizar passo-a-passo como as coisas que consumimos levam à poluição estimularia soluções para a redução dos abusos, acredita o ativista norte-americano.
Enquanto isso no maior país da América do Sul, falta saber o que o governo está fazendo para seguir o exemplo da Inglaterra. Os dados estão desorganizados na internet e em muitos casos não existem. No início de 2010 fiz parte de uma força tarefa que tentou, em vão, organizar as informações públicas dos senadores brasileiros – como faltas, presenças, justificativas – de modo a criar uma ferramenta de memória civil, para que as pessoas pudessem acompanhar o desempenho dos parlamentares.
Tivemos tantos problemas em receber os dados dos gabinetes que ficou inviável colocar o projeto em prática em tempo hábil para a eleição. Eu gostaria de ter escutado do Tim Berners-Lee como ele convenceria a Dilma a fazer o mesmo que o governo inglês fez. Mas o simpático acessor da Campus Party me afastou à cotoveladas. Será que a nossa presidente responde email?