"Data journalism não existe"

Ben Hammersley descreve o trabalho que faz como “rodar o mundo atrás das coisas mais legais”. O jornalista e fotógrafo de 34 anos é editor da versão inglesa da revista Wired, programador, ultramaratonista e pugilista. Também faz reportagens para a BBC, cobriu guerras e cunhou a palavra ‘podcast’. Além disso, o britânico foi escolhido para presidir a Campus Party USA, em 2012. “Será duas vezes maior que a brasileira e vamos lançar um foguete”, jura.
Hammersley foi o primeiro repórter de internet do The Times e fundou a rede de blogs do The Guardian. Fanático por mulheres de biquini, o simpático Ben esteve no Brasil para mediar o bate-papo entre Al Gore e Tim Berners-Lee durante a nossa Campus Party e para visitar algumas redações. Enquanto esteve na Editora Abril, conversamos rapidamente sobre data journalism. Falando sobre o futuro, deu um mini-curso de jornalismo. Confira na entrevista a seguir.
Você diz que os jornalistas do futuro não vão trabalhar em empresas. Como isso seria possível?
É claro que haverá um período de transição, ninguém vai sair pedindo demissão por aí. O jornalista precisa começar com uma história. Pense em filmes tipo Onze Homens e Um Segredo. O início é sempre a equipe se reunindo para uma tarefa praticamente impossível. No fim, com a missão concluída, cada um segue seu rumo. Acho que os trabalhos jornalísticos serão assim no futuro. Ninguém vai fundar um jornal. Um bando de caras talentosos irá se reunir e vai configurar algo como despesasdosparlamentares.com.br, o projeto vai render excelentes histórias, durar uns seis meses e o dinheiro não virá necessariamente do site em si. Se o trabalho for bom, as pessoas vão querer saber como o projeto foi feito, quem estava envolvido. Talvez renda um livro, aparições na TV e palestras. O dinheiro pode vir disso tudo.
Tim Berners-Lee acredita que o data journalism é o futuro do jornalismo. Mas esse ‘novo’ jornalismo exige habilidades que não são ensinadas na universidade… Por onde devemos começar?
A universidade nunca ensina nada de bom! Falando sério, as pessoas podem aprender sozinhas. O segredo é ter um problema para resolver e a partir disso aprender as habilidades necessárias para resolvê-lo. Foi assim que aprendi a programar sozinho e acabei escrendo livros sobre programação. Algumas pessoas estão fazendo assim com o data journalism, aprendendo a pilotar o avião enquanto ele está em voo. Para mim, o data journalism não existe. Existe o jornalismo que, por um acaso, usa dados. A verdade é que a raiz do problema não muda, jornalistas são contadores de histórias. Seja hoje ou daqui mil anos, o importante é entender a história que quer contar. Não adianta fazer um infográfico bonito e cheio de informações se ele não tem nada para contar. Isso é data journalism de péssima qualidade, é jornalismo de péssima qualidade. Se você, contudo, pega dados crus, faz uma investigação pesada e talvez utilize computadores para te ajudar, então, excelente. Mas as perguntas básicas para todo jornalista permanecem: “Qual é a história que quero contar? Como vou contar essa história? Para quem estou contado essa história?”. Se você tem um banco de dados, faça essas mesmas perguntas.
Quais habilidades esse novo jornalista precisaria ter? Vamos todos virar programadores?
Não! Do mesmo jeito que você não precisa fazer o layout de um jornal. Mas você precisa entender o que os outros profissionais estão fazendo. Não sou um designer, mas entendo o que eles fazem. Como jornalista, agora, você pode até não ser o melhor programador do mundo, mas você precisa entender o que um programador faz. Caso contrário, não haverá entendimento suficiente para a história que está tentando contar. A maneira mais fácil de dar início ao processo é entender onde você quer chegar. No caso de data journalism, o mais difícil é conseguir os dados. Todo jornalista tem direito irrestrito à informação, pois bem, use esse direito. Depois de conseguir os dados, daí sim, você se preocupa o que vai fazer com eles. O caso de data journalism mais famoso da Inglaterra envolve o gasto dos parlamentares ingleses. Eles podiam gastar com o que quisessem e sempre recebiam o dinheiro de volta. Só que os detalhes dos gastos eram segredo. Um amigo meu conseguiu vencer o governo na justiça depois de cinco anos, mas conseguiu fazer com que todas essas informações fossem liberadas. Depois disso, as pessoas começaram a trabalhar em cima dos dados. Histórias fantásticas surgiram por causa disso. Alguns parlamentares foram para a cadeia e isso contribuiu para que mudanças ocorressem no governo. Consiga os dados e envolva a comunidade de jornalistas, programadores e designers. O resto é trabalho duro.
Na Inglaterra, o Tim Berners-Lee conseguiu converncer o primeiro ministro britânico a liberar os dados públicos na internet. Infelizmente não temos um Tim no Brasil. O que deveríamos fazer para conseguir a mesma coisa com os dados brasileiros?
Quando falei com o Tim na Campus Party ele disse que, se preciso, as pessoas deveriam ir às ruas. Então, façam isso! Porém, tenho certeza que há pessoas de pensamento aberto no Brasil dispostas a liberar os dados públicos. Se elas não existirem, o que seria uma pena, peça ao Tim. Mande um email para ele. Ele vai indicar uma pessoa que já está fazendo isso, ou indicar quais pessoas vocês devem procurar. Mas acredito que as coisas não são tão ruins, porque sei que o governo atual é favorável a isso. Só vai levar um pouco de tempo. Quando o Lula deixou o governo a primeira coisa que ele disse que iria fazer era abrir um blog. Isso é um bom sinal, certo?