Descrer de Deus e a Ciência da Moralidade

Diz um acordo velado, firmado por todos os seres humanos de bem, que não se discute política, futebol e, principalmente, religião. Para fins pacíficos, suspendo esse acordo temporariamente. Algumas pessoas podem argumentar — e com razão — que é possível conversar sobre crença religiosa em alguns momentos, nos quais algumas regras a priori são definidas, mas é só. No mais, é preciso um talento e uma articulação intelectual hercúlea para sequer iniciar um diálogo sensato sobre divergências religiosas. Para que o diálogo seja pacífico, é preciso uma boa vontade entre todas as partes envolvidas, algo raro em disputas desse tipo.
Contestar a religião no mainstream e fazer com que as pessoas te escutem sem te encher de pedradas é praticamente impossível. Primeiro porque as pedras são inerentes ao meio dominante — há sempre alguém disposto a arremessá-las. Segundo porque temos uma longa e triste herança de conflito humano motivado por ideais que tiveram sua origem nas religiões. No apagar das luzes de 2010, contudo, conversei com uma dessas pessoas que possui talento e articulação intelectual suficientes para discordar do pensamento religioso e colocar a discussão em uma escala global. E vieram as pedras.
Sam Harris é um jovem (42) filósofo e neurocientista americano empenhado a nos convencer de que descrer de Deus é um atalho para a felicidade.  Suas críticas à religião são tão duras que, em 2007, foi rotulado como um dos ‘Quatro Cavaleiros do Apocalipse’, junto com outros três autores de igual calibre. Harris escreveu A Morte da Fé (Companhia das Letras) e Carta a uma Nação Cristã (idem).
Como se não bastasse a legião enfurecida de crentes — aqui, simplesmente os que crêem e não os dissidentes da Igreja Católica —, o ‘cavaleiro’ publicou em outubro o terceiro livro, dessa vez mirando o calcanhar de aquiles da Ciência: a moral. Torcendo o nariz de inúmeros catedráticos, The Moral Landscape (sem edição brasileira), lançado em outubro de 2010 nos EUA, propõe a criação de um novo campo da ciência: o da moralidade.
Dogmas x Honestidade racional
De acordo com Harris, os dogmas religiosos não permitem qualquer contestação honesta e racional. Com isso, a religião, na condição de guardiã dos valores morais, causa o sofrimento desnecessário de milhões de vidas. Apesar de as religiões se concentrarem, em certos pontos, no bem-estar das criaturas conscientes, o problema é que a maior parte dos dogmas foi criada em outras épocas, por outros povos, em um contexto muitas vezes completamente diferente do atual. Isso quer dizer que o conjunto de ideias que dá sentido aos valores da religião não dá conta de se renovar diante das mudanças que a realidade nos impõe.
Um dos exemplos mais emblemáticos — e que de forma alguma encerra a discussão e nem tão pouco pretende destacar essa ou aquela religião — é a posição contrária da Igreja Católica frente aos métodos contraceptivos. Harris afirma que, por causa disso, dezenas de vilas na África continuam cultivando o vírus da aids através das gerações, forçando essas famílias a passarem por uma miséria humana imensurável. O dogma do método contraceptivo não permite que a Igreja se renove frente ao aparecimento de uma doença mortal que é transmitida durante o ato sexual. Isso faz com que milhões de seres humanos sofram desnecessariamente.
Em nossa conversa, Harris explicou que a Ciência da Moralidade teria plenas condições de dizer o que é certo e o que é errado na vida dos homens sem ferir a objetividade da Ciência. Para arquitetar a complicada argumentação — que mistura filosofia, ciência e um manejo intelectual impressionante — o filósofo concluiu um doutorado em neurociência pela Universidade da Califórnia estudando como o cérebro reage em diferentes estados mentais; seja de felicidade, tristeza, mentira, verdade, etc.
Harris argumenta que os estados mentais dos seres humanos (esses, mensuráveis até certo ponto pela ciência) — ou seja, a maneira como o cérebro se comporta quando mentimos, falamos a verdade, quando estamos felizes, deprimidos ou apáticos, etc — formam uma ‘paisagem moral’. Essa paisagem seria composta por picos e vales de diferentes alturas. Os pontos mais altos seriam de plena felicidade, prosperidade e bem-estar. Os vales, pura miséria e tristeza humana.
Sabatinada
Assim como os religiosos que rechaçaram os dois primeiros livros, The Moral Landscape já foi duramente criticado por cientistas, jornalistas e filósofos de todos os cantos. A maior parte das críticas diz que Harris acrescenta muito pouco ao debate arrastado desde o século 18, em que o filósofo escocês David Hume apresentou o problema metaético “é/deve ser”. Nele, Humes argumenta que existe uma diferença fundamental entre os problemas descritivos (em uma palavra, fatos), dos problemas normativos (nos mesmos termos, moral). Ou seja, a Ciência não é capaz de dizer como os seres humanos devem agir, uma vez que ela se preocupa em descobrir e explicar o mundo como ele é e não como ele deve ser. Até hoje, esse bolo vem sendo repartido pela filosofia e pela religião.
Outro ponto muito atacado pelos detratores da proposta de Harris é a definição de bem-estar. Alguns dizem que o autor não consegue definir objetivamente o que ele é, “fugindo da raia”. Afinal, seria possível chegar em uma definição científica de bem-estar? Uma pessoa poderia argumentar que o bem-estar de um pedófilo não é o mesmo que o de um salva-vidas.
Harris rebate os críticos dizendo que o bem-estar não necessariamente passa pelo prazer e que existem muitas variáveis a serem analisadas. Ele afirma que a Ciência e a Filosofia foram contaminadas por um relativismo entediante, que não se preocupa com as principais questões da vida humana. Existem valores na Ciência que não são contestados, e portanto, a ciência da moralidade deveria receber o mesmo tratamento, por tratar de questões importantes à vida do ser humano — por exemplo, é incontestável que um médico salve vidas; não é discutido se ele deveria salvá-la ou não.
Sendo assim, porque deveríamos perder tempo discutindo minúcias irrelevantes que não contribuem para a definição do que seria o bem-estar? É óbvio que alguém que se droga o dia inteiro, apesar de sentir um prazer aparente, não está contribuindo para a sua prosperidade e de seus pares, muito menos para o seu bem-estar. Por que perder tempo com esse relativismo ululante enquanto outros problemas legítimos poderiam estar sendo endereçados? São algumas perguntas que ele faz.
Com a palavra, Sam Harris
Mas como definir o que é o ‘bom’ e o que é o ‘mau’? Assim como existem os axiomas na Ciência, o neurocientista faz uma única exigência que serve como ponto de partida para a Ciência da Moralidade. É mais ou menos assim: considere a situação em que todos os seres humanos estão na mais plena e absoluta miséria. Não apenas a miséria que vem da pobreza material, mas todos os males que acometem o bem-estar do indivíduo. Essa situação imaginária Harris classifica como ‘mau’. Pronto. Única exigência.
A partir daí, tudo aquilo que afasta o homem dessa condição imaginária passa a ser o ‘bom’, por definição. Ora, se os estados mentais são mensuráveis em um laboratório, quer dizer que há uma maneira objetiva de construir um mapa da ‘paisagem moral’, verificando quais são as situações consideradas corretas e as consideradas erradas, sob a ótica da Ciência da Moralidade.
Não quer dizer que haveria apenas um caminho correto para se chegar à felicidade e prosperidade humana. Assim como é possível ter uma alimentação saudável recorrendo a um sem número de alimentos, seria possível alcançar os picos da ‘paisagem moral’ de muitas maneiras — isso constituiria a ‘retidão moral’ do mundo, dissociando os seres humanos das ilusões religiosas de uma vez por todas.
Mas será que é possível substituir a batina dos padres pelos jalecos dos cientistas? Leia o livro, se puder. Enquanto isso, confira a entrevista na íntegra no site de VEJA, onde Sam Harris desenvolve os pontos mais sensíveis dessa delicada — porém estimulante, quando pacífica — discussão.