Dilma "assume" governo, dois anos e meio depois de eleita

Se você não viu o pronunciamento da presidente Dilma, eleita em 2010 e que tomou posse em janeiro de 2011, tá aí. Foi a primeira vez que ela falou publicamente sobre os protestos.

Não foi algo que me inspirou diretamente.
Falo disso mais adiante.
A primeira parte do pronunciamento foi totalmente dedicada para falar o óbvio: condenar o vandalismo e reforçar o direito popular de manifestação pacífica. Ninguém esperava que a Dilma fosse pra televisão elogiar os saques e a quebradeira e condenar a manifestação pacífica. Mas é o tipo de coisa que precisa ser dita, reforçada. Há também um traço emocional muito forte nesse trecho e que ela retoma no finalzinho. Sob o ponto de vista da pessoa Dilma, ela poder falar, 40 anos depois que foi presa e torturada pelos militares, na televisão, que o povo brasileiro pode manifestar pacificamente à vontade e que será ouvido pelo governo, é algo muito significativo para a nossa democracia. Mesmo que você não goste da figura, do partido, da ideologia que ela representa.
O restante do discurso me deixou confuso e preocupado. Mas também me inspirou indiretamente. Confuso e preocupado porque as propostas e colocações de Dilma soaram muito como discurso de campanha. Se não de campanha, de uma candidata que está fazendo o seu discurso de posse. Lembre-se que o governo Dilma está na metade do terceiro ano. Por quê? Veja este trecho:
“Irei conversar, nos próximos dias, com os chefes dos outros poderes para somarmos esforços. Vou convidar os governadores e os prefeitos das principais cidades do país para um grande pacto em torno da melhoria dos serviços públicos. O foco será: primeiro, a elaboração do Plano Nacional de Mobilidade Urbana, que privilegie o transporte coletivo. Segundo, a destinação de cem por cento dos recursos do petróleo para a educação. Terceiro, trazer de imediato milhares de médicos do exterior para ampliar o atendimento do Sistema Único de Saúde, o SUS.”
Dilma não fez promessa alguma, a não ser a de convidar lideranças para um bate-papo, mas falou de coisas que não dependem só da vontade dela. O executivo não tem como definir como será o plano de mobilidade dos centros urbanos, isso cabe aos municípios e aos governadores. Falar do privilégio do transporte coletivo, hoje, me parece até piada. Há quanto tempo quantas cidades pelo Brasil estão esperando linhas de metrô? E mais: como o governo vai privilegiar o transporte coletivo se, na prática, o único privilégio é para as empresas automotivas? Há não muito tempo, para citar um exemplo, uma montadora de carros se gabava de vender 60 carros por minuto em Belo Horizonte. Com tantos carros nas ruas, com tantos privilégios para essas empresas, fica difícil levar a sério uma fala como essa. Principalmente levando-se em conta que ela vem na esteira de uma onda de protesto e não de uma série de medidas.
A outra questão bem delicada é a bomba que ela jogou no Congresso ao afirmar que dependerá deles aprovar o projeto que destina 100% dos royalties do petróleo para a educação. Sei que esse assunto é muito querido das causas populares, mas já conversei com pessoas muito inteligentes, especialistas do assunto e o veredicto é sempre o mesmo: o Brasil não precisa de mais dinheiro na educação. Não é esse o problema. o Brasil gasta mais com educação, proporcionalmente ao PIB, do que países como Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Coreia do Sul. Essa de prometer gastar mais dinheiro com educação me parece mais uma jogada marketeira do que uma proposta real de melhorar a educação. Gente, gastar mais com educação não implica em melhorá-la.
Sobre os médicos, não sei se essa é a saída para resolver o SUS. Parece uma solução sedutora, mas que tem um apelo muito forte ao cacoete brasileiro de achar que tudo que vem de fora é melhor. Não sei.
Em seguida, ela fala o seguinte:
“Anuncio que vou receber os líderes das manifestações pacíficas, os representantes das organizações de jovens, das entidades sindicais, dos movimentos de trabalhadores, das associações populares. Precisamos de suas contribuições, reflexões e experiências, de sua energia e criatividade, de sua aposta no futuro e de sua capacidade de questionar erros do passado e do presente.”
Fico me perguntando se isso já não acontecia. Já não existem interlocutores no governo para escutar essas lideranças populares? E se não existe, por que não? Tem algo errado aí.
O restante do discurso falou da reforma política, ponto que, humildemente, penso ser o mais relevante no momento. Se esse movimento popular precisa de foco, deveríamos concentrar todos os esforços em promover uma reforma política antes das próximas eleições, para que possamos ver os resultados já no próximo pleito. Falta pouco mais de um ano para irmos às urnas novamente e qualquer outra reivindicação, como melhorar o transporte urbano de todo o país ou prometer mundos e fundos para a educação, me parece distante demais, descolada demais, da realidade em que vivemos. Uma reforma política séria, que dê instrumentos de acompanhamento popular, que acabe com a farra do financiamento de campanha, que penalize aqueles que faltem às sessões do Congresso, impeça criminosos de se reelegerem para sempre, e tantas outras coisas, pode ser um objetivo muito mais palpável no momento.
Esse discurso me inspirou indiretamente porque o governo ouviu o povo. Quer queira, quer não, é a primeira vez em muito tempo que os políticos do nosso país foram lembrados que há uma nação muito maior que os limites do plano piloto, que o aconchego das sofisticadas poltronas do Congresso. O momento não é de pedir a cabeça de quem foi eleito democraticamente. O momento é de aproveitar essa oportunidade para colocá-los para trabalhar. Tá na hora do brasileiro fazer o que nunca fez, que é cobrar de seus representantes resultados. De fiscalizar os gastos públicos e acompanhar as mudanças. De parar de reclamar que a culpa é do estado, como se este não fosse apenas um grande reflexo da sociedade que somos no momento.
Se aproveitarmos essa oportunidade para provocar essas mudanças, é certo que as próximas eleições serão muito diferentes. Tanto na qualidade dos candidatos que surgirão, quanto no peso que cada um dará para seu voto. O meu, com certeza, nunca mais será o mesmo.