Não se iluda, Constituinte também terá Felicianos

A cada quatro anos nós vamos às urnas votar em deputados federais e senadores. Chegamos lá, apertamos uns numerozinhos, aparece a foto do camarada, e pressionamos o verde. Quem é aquele cidadão? Um político. Ok. Mas o povo está insatisfeito, não se sente representado, e alguém resolve convocar uma constituinte exclusiva para a reforma política. Ou “propor o debate sobre a convocação de um plebiscito popular que autorize o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política”.
A suposição é que os constituintes não estarão contaminados pelo risco de perder o mandato e enfim poderão fazer a tão sonhada reforma que o Brasil precisa. E quem serão os constituintes? “Gente da sociedade civil”, diz a resposta mais batida. E que raios são os políticos? “Gente da sociedade militar”? Ou são empresários, médicos, professores, sindicalistas, servidores, pastores e outros cidadãos que optaram por disputar uma eleição?
Qualquer debate democrático me parece sadio, só temo que no afã de conquistar mudanças necessárias as pessoas deixem de perceber que vivem em uma sociedade complexa e plural, onde o Pastor Feliciano representa um contingente significativo da população, onde o Bolsonaro apenas ecoa a opinião de outro grupo representativo e onde petistas e tucanos defendem escolhas de fatias relevantes do eleitorado.
Uma Constituinte exclusiva não terá apenas a posição dos liberais ou dos marxistas, dos honestos ou dos ladrões, dos ateus, dos católicos, dos evangélicos ou dos judeus. Terá a opinião de todos eles. Feliciano será representado, Bolsonaro também, Jean Willys também, Lula também, Alckmin também, o PSOL também… Se eles não estiverem, alguém que pensa como eles estarão.
A menos que alguém esteja pensando em um Conselho de Çábios -– daqueles que você coloca seus coleguinhas e monta uma bela ditadura –, a Constituinte será formada por cidadãos que se candidatarão aos cargos -– exatamente da mesma forma que os deputados fizeram há três anos –- e que representarão as linhas A, B ou C. Os alinhados ao PT tentarão mais uma vez emplacar o voto em lista com financiamento público, os ligados ao PSDB tentarão fazer valer o voto distrital com financiamento privado, os próximos aos partidos médios e pequenos tentarão impedir que se crie cláusulas de barreira.
Então me pergunto: o problema é o sistema ou são os desvios nele? A quatro meses da data-limite para se alterar regras para as próximas eleições, bombástico seria ouvir algo assim: “Apresento aqui uma proposta de fim das coligações proporcionais, limite de R$ X milhões por campanha, perda de mandato automático para quem praticar caixa dois e para toda a bancada caso o caixa dois seja do partido.”
Ninguém duvida que isso melhoraria o sistema. Uma constituinte pode mudar o sistema para melhor? Pode. Mas também pode mudar para pior. O Brasil que acordou nas últimas semanas têm pressa, e com razão, mas nada será tão útil para todos quanto um voto consciente nas próximas eleições. Elas têm data: outubro de 2014. E uma vantagem enorme: nela, você poderá escolher o deputado e senador que fará melhor não só pela mudança nas regras políticas como aquele que vai ter melhor proposta para educação, saúde, transporte, segurança. Basta votar consciente. E ir para as ruas pedir para todos fazerem o mesmo. #vemprarua