O dia em que 'data journalism' se tornou 'Notícias Interativas'

No início do ano comentei no post “O que é data journalism?” que um dos principais objetivos desse blog é divulgar e descobrir essa coisa que na época eu chamava ‘data journalism’. Chamava. Áreas emergentes do conhecimento não têm as mesmas regalias daquelas já consolidadas. Elas não têm definição precisa, não têm maturidade. Os nomes que damos em determinado momento dão vagamente conta daquilo que conhecemos. À medida que a jornada acontece você troca experiências, desenvolve raciocínios e descobre novos horizontes. Na minha caminhada, descobri que, pra mim, data journalism é um afluente de algo maior. Algo que a partir de agora chamo de Notícias Interativas. Por quê?
Meu interesse por data journalism começou em 2010, quando conheci um americano chamado Aron Pilhofer na Editora Abril. O Aron é um cara que se formou em ciência da computação e depois construiu uma carreira em volta do jornalismo. Hoje ele é diretor de interatividade do The New York Times e um dos fundadores do Hacks and Hackers e DocumentCloud. Para mim, que quase fiz computação, cursei engenharia e formei em jornalismo, havia muita semelhança e passos a serem seguidos quando tive o primeiro contato com o Aron.
Desde então, procurei manter contato com ele e pedi que me indicasse os outros Arons, em outras redações. Fiz várias buscas no Twitter (até compilei uma lista com perfis interessantes para serem seguidos) e em outros blogs. Descobri que existe uma pequena, mas vibrante comunidade em volta desse jornalismo assistido pela computação e que hoje, por causa do ingrediente “internet”, se traduz na forma de notícias interativas.
Descobri, por exemplo, o NICAR, o National Institute for Computer Assisted-Reporting, nos EUA. O NICAR é um espaço formidável. A lista de discussão do instituto é formada basicamente por jornalistas que trabalham o tempo todo com projetos interativos, de visualização de dados, jornalismo investigativo com a ajuda de computadores e coisas do tipo. Com mais de mil membros, o dia todo surgem duvidas sobre como fazer tal coisa no Google Fusion Tables, ou como resolver um problema de Excel, ou simplesmente divulgar uma pauta que vale a pena ser perseguida com a ajuda de computadores.
Além do NICAR, grandes jornais têm dedicado efetivo para a tarefa de tocar projetos interativos. Além do The New York Times, o Los Angeles Times possui uma espécie de laboratório para os projetos interativos, assim como o The Guardian e vários outros. Esses espaços não fazem apenas data mining, data journalism, data crunching ou qualquer que seja o nome dado à pratica que relaciona jornalismo e dados, que transforma o banco de dados em entrevistado. Esse pessoal vai mais fundo e toca projetos que vão desde uma simples competição do Oscar com os amigos, passando por mapas da criminalidade em grandes cidades, até uma espetacular plataforma para a cobertura de eleições.
É justamente o que estou buscando. Dominar os meios e a configuração mental para contar histórias de um jeito inteligente que se manifesta por meio de notícias interativas. Essa viagem passa necessariamente por aprender a programar, a entender os sistemas de internet e quais são as leis naturais desse universo computacional. Passa por aprender Processing, ManyEyes, Google Fusion Tables, ou entender SQL, Python/Django e Ruby/Rails. É preciso estudar Design Thinking e conceitos básicos de interfaces visuais, usabilidade e arquitetura da informação. E é claro, uma base sólida do bom e velho jornalismo.
Não acho que exista uma fórmula ou um caminho precisamente definido. O importante é você identificar quais aspectos te seduzem mais: gosta de programação? Gosta de mastigar intermináveis bancos de dados? Gosta de organizar como a informação será exibida? Escolha um, dois, ou todos os caminhos. Seguramente você estará indo na mesma direção em que o jornalismo está crescendo e evoluindo.
Por isso, por mais “catchy” que seja a expressão data journalism, até alguém aparecer com uma expressão melhor, fico com a levemente brega Notícias Interativas.