Querida família

Eu não vivi a ditadura, mas sabemos, hoje, que a “revolução de 64” foi um Golpe de Estado. Os grupos que apoiaram o golpe erraram. Erraram porque foram contra a democracia, coisa que nunca devemos fazer. Não há saída fora da democracia. A decisão desses grupos em apoiar a tomada de poder pelos militares resultou num período longo e traumático para o Brasil. Famílias perderam seus filhos, políticos perderam seus direitos. Pessoas foram exiladas. Muitos torturados. O que se avançou com o milagre econômico na gestão Médici é pequeno frente ao retrocesso cívico que tivemos no país.
A nação perdeu muito, tanto do ponto de vista de violação de direitos fundamentais, quanto do ponto de vista da liberdade de pensamento. Sabemos também que a ditadura não começou anunciada. Tudo foi feito como rezava o rito constitucional, com a benção do Supremo, do Congresso e da imprensa, e inclusive com apoio de alguns setores da sociedade.
Mas golpes raramente são anunciados como tal. O que circulava nos press releases de 1964 era um novo governo que respeitaria a constituição e colocaria o Brasil nos trilhos, para limpar a corrupção e uma solução para afastar de vez a “esquerda”. É assustador como essa proposta tem similaridade com as narrativas que transitam pelo Brasil hoje.
Os Atos Institucionais começaram imediatamente após à instalação do governo dos militares. Foram atos que diminuíram consideravelmente as liberdades individuais e coletivas do país e consolidaram a perseguição a grupos políticos, intelectuais, artistas e a própria diversidade de pensamento. Discordou? Cana para o subversivo.
É com muito espanto, então, que observamos um dos candidatos pleiteando a presidência da república cercar sua campanha com aspirações autoritárias e com sujeitos que não hesitariam um dia sequer na organização de uma ditadura, com uma constituição redigida por notáveis.
Nenhuma família merece se formar, crescer e se desenvolver num governo autoritário/ditatorial. Já passamos por isso. Temos exemplos aos montes, dentro e fora do Brasil. Carl Sagan dizia que a sociedade é esse ser frágil, sujeito à captura de discursos extremistas, supersticiosos, mentirosos. A única defesa seria a construção sólida da honestidade intelectual, da curiosidade e da aplicação rigorosa do método científico e do raciocínio cívico.
É triste, decepcionante, de partir o coração mesmo, ver nossos irmãos compatriotas caindo nessa armadilha da polarização. Um simples aceno à moderação, que em tempos mais calmos seria visto como ação altiva e nobre, hoje é visto como radicalização por qualquer um dos lados. Uns te convidam a se mudar pra Venezuela, enquanto outros te chamam de golpista. Se a moderação tivesse um pouquinho mais de espaço na nossa sociedade, a nossa eleição seria mais sobre ideias para o Brasil e menos um referendo sobre quem você não quer ver de jeito nenhum no governo. O Brasil é maior que isso. Deveria ser.
Temos o que muitos países dariam de tudo para ter: a Amazônia, uma das maiores e mais lindas costas, recursos naturais em grande abundância, o melhor lugar do mundo para se lançar foguetes, a maior biodiversidade do planeta, uma matriz energética limpa, uma criatividade do tamanho do universo…
Mas infelizmente somos um povo que, apesar de resiliente, tem memória curta. Temos demonstrado uma capacidade coletiva muito pequena de aprender com episódios que deveriam ter marcado o nosso consciente coletivo. Quer ver?
Depois de ser o último país a abolir a escravidão no ocidente, a República brasileira foi fundada a partir de um golpe militar. Em seguida, foi um acordo das elites mineira e paulista que trouxe estabilidade para o governo, mas sem a participação ampla daqueles que não eram considerados aptos a participar das decisões. Esse acordo foi quebrado com um golpe de estado que estabeleceu uma ditadura civil. Essa ditadura teve o apoio dos militares que, depois do fim dela, após um ciclo de governo civil, aplicaram um golpe de estado para tomar o poder. Quando a ficha caiu e publicamos a Constituição Cidadã, no fim da década de 1980, elegemos um despreparado que venceu a eleição com frases prontas e títulos fantásticos, como “caçador de marajás”. Anos depois, o brasileiro colocou no poder, de novo, uma pessoa sem experiência e sem qualquer tato político. Era chamada de burra por uma parte considerável da população. A falta de espírito cívico da oposição, que armou a aprovação de pautas bomba com o único intuito de ferrar com o governo, unida a criminosos e despreparados que governavam o Brasil, resultou numa implosão democrática que terminou de partir o país ao meio. Ninguém confia em ninguém. Todos são ruins, todos são criminosos. Dizem, “precisamos de alguém que limpe a sujeira que está aí”.
Eu entendo esse sentimento, de verdade, mas repudio com todas as forças a última frase. Não precisamos de alguém que limpe a sujeira. Já tentamos isso com o Marechal Deodoro, com o Getúlio, com o Castelo Branco, com o Collor…
A solução é mais complicada do que apertar dois números no dia da eleição e aguardar que os problemas sumam. “O Brasil que vai dar certo” não é um filme interativo em que elegemos os atores e assistimos, da plateia, o desenrolar do enredo. Nós somos o Brasil que, hoje, infelizmente, está dando muito errado. Não adianta dizer “a culpa não é minha porque eu votei em outro”. O regime democrático não é de adesão. Não somos convidados a participar do governo só quando o nosso lado vence. O governo legitimamente eleito é de todos: situação e oposição. Seu candidato não foi eleito? Faça oposição. Fiscalize o trabalho, ofereça o contraditório. Fazer oposição não quer dizer tapar os ouvidos e falar mais alto que o outro. Significa negociar com o outro lado quais serão os sacrifícios necessários para que possamos nos encontrar no meio do caminho. Isso vale para o lado vencedor também. Não se governa só para a situação. De novo, o governo precisa ser para todos. Eu me sinto um babaca por dizer isso, mas é verdade.
2018 está mostrando mais uma vez como nós agimos como se tivéssemos memória curta, e como somos vulneráveis aos movimentos pendulares da história. O que estamos presenciando é, em um dos desfechos possíveis, o prelúdio de um desastroso e longo período de escuridão. Nos últimos meses tenho investido muito do meu tempo para ler as propostas dos candidatos, as análises de pessoas que respeito (ou não) as opiniões, observado os movimentos nas redes sociais e nas cidades por onde passo, conversado com pessoas nas ruas, nos ônibus, nas filas… e quanto mais eu penso sobre o assunto, vejo que talvez já tenhamos passado do ponto de inflexão: escolher entre Haddad ou Bolsonaro não poderia ser pior para o Brasil.
O PT, que foi responsável pelo programa de redistribuição de renda mais bem-sucedido do mundo, está reduzido a uma campanha deprimente, que lembra muito a estratégia do Maduro na Venezuela. Agora, vejam que constrangedor é ver o Brasil, grandioso como o é, ser colocado de frente a uma campanha comandada a partir da cadeia, em que o candidato não tem voz própria e precisa despachar com um condenado. Digam o que quiserem sobre a sentença do Lula: se ele é inocente e se considera um perseguido político, ele deveria ter feito o que os perseguidos políticos fazem, ou seja, procurar asilo político em alguma embaixada. Se ele se entregou à polícia para provar sua inocência dentro da matriz judiciária que o condenou, ele legitima a sentença e o sistema. Nesse caso, não é lógico concluir que há perseguição, não do ponto de vista do condenado.
Isso só evidencia o autocentrismo do PT, com uma total falta de sensibilidade em sair um pouquinho da própria bolha e identificar que o antipetismo é uma das forças que corroem o Brasil hoje. O impeachment de 2016, que certamente carrega elementos conspiratórios e nada republicanos, não foi suficiente para que o PT entendesse que já deu, que o partido não possui mais condições de governar para todos com a sua atual estatura. Em vez de o partido escolher uma saída altiva e que fosse agregadora para o bem da nação, abrindo mão do protagonismo e dando passagem para vozes e grupos com maior capacidade de construção de pontes, o partido escolheu partir para o tudo ou nada, com uma estratégia centrada no culto à figura do Lula.
Do outro lado, a força antipetista vem ganhando tração há muitos anos, com empurrões em 2013 e uma baita força em 2014, quando o candidato perdedor descumpriu o mais básico e sagrados dos acordos democráticos: o de não contestar o resultado de uma eleição legítima. A transição pacífica do poder é o que mantém o tecido social coeso, é o que permite a disputa saudável de ideias. É a condição necessária para que as contradições de uma civilização se transformem no combustível que faz progredir uma sociedade.
E como não há vazio de poder na política, o sentimento antipetista, o sentimento “contra tudo que está aí”, “contra a esquerda que quer dominar o Brasil”, que antes encontrava conforto moral no PSDB, está mudando de endereço para, num dos desfechos possíveis, reprisar mais um capítulo da nossa sofrida história: a de depositar nossas fichas num forasteiro que vai, agora sim, acabar de vez com a bandalheira. E pra deixar tudo ainda mais trágico, essa figura é um ex-militar que defende a ditadura como uma “revolução” e que já disse publicamente que o Brasil precisa de um governo que faria o que a ditadura não fez, matando uns 30 mil (e se alguns inocentes morrerem, paciência)… dentre outras coisas. E como se isso não bastasse, o candidato a vice-presidente na chapa é um general da reserva que argumenta que o presidente tem a prerrogativa de chamar o exército para tomar o poder, caso seja identificada “anarquia generalizada”… ou que a constituição poderia ser re-escrita por uma constituinte formada por notáveis, em vez de legitimamente eleitos pelo povo.
Tudo isso é compreensível porque a vocação do exército não é fazer política. As forças armadas não funcionam sob regime democrático e é bom que seja assim. O contraditório não tem muito espaço numa estrutura que precise defender a pátria de inimigos externos. Ou você respeita a ordem e contribui para o funcionamento do sistema de acordo com o plano, ou o inimigo te mata. Existe disciplina, esforço, patriotismo, planejamento, visão de longo prazo, muito estudo, senso de equipe, de união, mas não existe muito espaço para o soldado dizer “veja bem, general, o senhor está errado…”. Basta ver o histórico da atuação política do Bolsonaro: ele foi um deputado que sempre defendeu o exército e suas estruturas e sempre mostrou certo nojo em relação aos princípios democráticos. Pudera, uma pessoa que se formou no exército e defende os interesses da organização, com um amplo histórico de bravatas, se tornar um democrata de uma hora para outra?
E isso me traz para domingo, dia 7 de outubro.
Eu precisava escrever isso porque tá difícil demais. Estamos vendo o contador dessa bomba-relógio nos últimos segundos, sem qualquer perspectiva de desarme. Eu comecei esse texto pensando numa mensagem de Whatsapp para o canal da minha família, para pedir pelo amor de deus um pouco de moderação para os meus familiares, para que o voto fosse além do Bolsonaro ou do Haddad, para qualquer uma das alternativas que estão aí. Mas não deu. Eu escolhi sair do grupo antes que isso acontecesse, pois percebi o que muitas gerações antes de mim devem ter percebido em diferentes partes do mundo que passaram por processos de polarização.
Quando o que está em jogo é a sua visão de mundo não importam os fatos. Importa que sua tribo vença. 
Que triste, então, é encarar a realidade: vamos todos perder.
Qualquer que seja o resultado dessa triste eleição, 2019 será um ano que exigirá ainda mais do nosso espírito cívico. Que tenhamos força, paciência e sabedoria para unir esforços. Mais do que nunca o Brasil precisará de pontes para unir dois grupos que se esqueceram, mesmo que temporariamente, que um precisa do outro para progredir.