Satélite brasileiro CBERS-3: nem tão fracassado assim

CBERS-3

O satélite CBERS-3 ia nos ajudar, dentre outras coisas, a monitorar a Amazônia de forma autônoma


Então, tá todo mundo zoando de montão o fracasso do lançamento do satélite brasileiro, o CBERS. Esse satélite ia ajudar pra caramba a monitorar a região amazônica. Hoje, dependemos da boa vontade dos EUA para fazer isso. Pode? Estão dizendo que “made in china” dá nisso, que investimos mal em um produto “ching ling”, que o Brasil deveria firmar parcerias com países mais consagrados na corrida espacial etc etc. Erm… mais ou menos. Duas coisas.
A primeira é que a China está muito bem na questão espacial. Os caras estão construindo uma estação espacial. Já colocaram seres humanos no espaço. Estão levando adiante um programa que pretende colocar o homem na Lua de novo. Sozinhos. Pense nessas últimas afirmações por uns dez segundos. Releia-as se for preciso.
A outra estação espacial que temos na baixa órbita da Terra foi concluída por um consórsio internacional, envolvendo cinco agências espacias, uma delas representando a Europa (NASA – EUA, Roscosmos – Rússia, JAXA – Japão, ESA – Europa, CSA – Canadá). Outros países — EUA e União Soviética — só se aventuraram, e conseguiram, construir uma estação espacial sozinhos durante a Guerra Fria, quando havia interesse político de sobra pra esse tipo de empresa.
Isso por si só já faz da China uma excelente parceira espacial, ainda mais levando em conta os termos do programa CBERS. Por infortúnios que não cabem nesse post, o Brasil não acompanhou a evolução espacial da China, apesar de os dois terem começado em pé de igualdade na década de 1980. De lá para cá, houve troca de conhecimento e tecnologia e cada vez que um satélite CBERS fica pronto, há mais tecnologia brasileira no bicho. Este último, que infelizmente fracassou, possuía 50% de tecnologia nacional. O foguete usado para o lançamento, uma variação do Longa Marcha, já havia sido lançado 36 vezes, com 100% de sucesso. É um histórico impressionante. Lançamentos espaciais são arriscados mesmo, mas não havia nenhum motivo para se duvidar do sucesso deste lançamento. Comparar essa lamentável situação com bugigangas chinesas é de um mal gosto imensurável.
Para quem não entende a inhaca que é empreender na área espacial fica fácil criticar. Fica fácil dizer “deveria ter feito parceria com os EUA, como a Argentina faz”. “Quem mandou acreditar em produto ‘Made in China?'”. Entendam uma coisa. O Brasil é um país de proporções continentais. Abriga a maior parte da Amazônia, onde está a maior biodiversidade em floresta tropical do mundo. Possui uma linha costeira gigantesta e está posicionado em uma região muito estratégica no mundo: praticamente não temos terremotos, temos recursos naturais abundantes, fazemos fronteira com quase todos os países da América do Sul, temos vistas para o Altântico Norte e Sul e podemos lançar foguetes a partir da Linha do Equador. Trocando o fisiquês por linguagem de bar, isso significa que a gente tem o potencial de ser foda pra “carvalho”.
Ninguém quer que o Brasil desenvolva tecnologia para construir e lançar seus próprios foguetes a partir de solo nacional. Por quê? Ora, um foguete nada mais é do que um míssil. Só que em vez de você colocar um satélite na ponta do brinquedo você coloca um calhamaço de coisas que fazem explodir. Mais um país que domina a tecnologia de mísseis pode significar duas coisas: concorrente na indústria bélica e de satélites — hoje formada por um grupinho pra lá de restrito com alguns poucos players — e possível problema em negociações de guerra (é mais difícil negociar com quem tem mais tecnologia, né?). E olha, a expressão “rocket science”, em inglês, não existe à toa. Construir um foguete é dificílimo. Colocar coisas na ponta desse foguete e fazer elas funcionarem no espaço é complicadíssimo também.
Essa volta toda pra dizer que países como os EUA só assinam acordos mais interessantes (lê-se: troca pesada de tecnologia) de parceria para a construção de coisas espaciais com o Brasil se a gente abrir mão de desenvolver tecnologia de foguete. Como o Brasil não arreda o pé, as represálias são duras. Quem quer construir foguete não vai ao supermercado comprar as pecinhas. Nem existe um “eBay” pra materiais ou combustíveis que compõem um foguete. O trem só vai na unha, como dizem no glorioso dialeto mineiro.
Quem decide ter foguete (e o Brasil tem toda a razão de querer, sem fazer juízo de valor sobre como é a política espacial aqui) precisa desenvolver a tecnologia sozinho e sofre embargos para fazer compras no mercado internacional de muambas espaciais. São poucos os países que topam empreender na área espacial em conjunto sem grandes prejuízos para a parte tecnologicamente mais fraca. A Embraer, pra citar só um exemplo, já deixou muitas vezes de entrar nessa de construir satélites (e outras cositas da indústria de defesa) porque poderia sofrer embargos ao comprar peças/materiais, no mercado lá fora, para construir aviões aqui.
Daí vêm os Ching-Lings, que não só podem se tornar a maior potencia espacial em pouco tempo, como também estiveram com a gente há uma cara, desde o início da Agência Espacial Brasileira, pelo menos. O acordo entre as partes atende aos interesses de ambos, inclusive às aspirações brasileiras de se tornar independente na questão espacial… um dia. Agora pensa se o Brasil tivesse rifado sua chance de ser soberano em projetos espaciais para ter uma constelação de satélites lá no alto. É uma visão muito restrita para o que realmente podemos fazer, não? De novo, estou dicutindo o mérito, não a execução.
E pra finalizar, a segunda coisa. Se nada disso te convenceu de que o triste episódio do fracasso do CBERS não merece ser tratado da forma rasa como vem sendo, pense nos profissionais brasileiros que dedicaram anos e mais anos de suas vidas para ver o sucesso desse lançamento. Empreender na área espacial no Brasil, principalmente no Brasil, não é fácil. Tem que ter muita resignação e muito amor pelo que faz.
Infelizmente não temos um histórico consistente de investimentos governamentais na área espacial. Qualquer um que entra nessa sabe que a chance é grande de perder muito dinheiro. Quem faz, faz porque gosta — e muito — em primeiro lugar. Em segundo, porque independente da contrapartida governamental, acredita que o Brasil pode, ou melhor, precisa ser grande na área espacial e temos de começar de algum lugar. Ou vocês acham que China e EUA começaram grandes?
Só pra deixar claro de uma vez por todas, não estou dizendo que o programa espacial brasileiro é isento de críticas. Não estamos bem há muito tempo por vários fatores, que são amplamente discutidos por aí. O que pouco se discute são as dificuldades e os méritos.